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10 de junho de 2014

Wing Chun - princípios e teorias

 

Linha do Meio

Ocupar e proteger a própria linha do meio – ou linha central - e atacar a linha do meio do inimigo. Significa atacar em linha reta, seguindo o princípio que diz que: "A menor distância entre dois pontos é uma linha reta". Assim sendo, o lutador deve ocupar a linha do meio a fim de impedir ataques, enquanto busca brechas no campo adversário.


O estudo se dá por meio da chamada linha do meio, que nada mais é que uma linha imaginária traçada entre você e seu adversário, estando ele de frente (ângulo frontal) ou de lado.

 

Imobilidade do Cotovelo

Os cotovelos devem estar próximos ao corpo, distantes no mínimo um a medida de um punho, e máximo uma chave. Não é bom abrir demais quando na execução de paak sau, taan sal etc.; mover somente o suficiente para defender seu corpo. Nem mais, nem menos. O cotovelo deve manter-se como num eixo: fixo, mas maleável.

 

Ângulo Frontal

Em Wing Chun, aconselha-se a encarar a situação de frente, sem rodeios, sem delongas. Seja num combate físico, ou numa situação do cotidiano. Ser como a cobra que encara sua presa de frente.


Sem a teoria do ângulo frontal, todas as outras teorias (linha central, soco reto, cotovelo imóvel etc.) não se sustentariam.

 

Jat Zi Zung Ceoi – O soco clássico do Wing Chun

Bater com o punho no meio, na forma do caractere do Sol. O punho é mantido na vertical, o impacto é com as juntas dos dedos médio, anelar e mínimo. É um soco estruturalmente ósseo – não muscular –, e é apoiado pelo sistema esquelético e do cotovelo, que é mantido alinhado: nem para dentro, nem para fora. Aí temos a aplicação dos princípios da física no Wing Chun Kung Fu.


Graças aos punhos na forma do caractere do Sol é possível ao praticante executar socos sequenciais alternados, denominados Lin Waan Kuen (socos ou punhos conectados, interligados e circundantes).

 

Simultaneidade

Wing Chun é estratégia marcial. Não se gasta tempo nem energia desnecessariamente. Costumo dizer que, em Wing Chun, não existe defesa nem ataque. Existe somente o movimento estratégico ofensivo/defensivo, ou defensivo/ofensivo. Estou dizendo que quando atacamos, estamos simultaneamente nos defendendo, impedindo, dificultando a ação do inimigo. 


Assim também é quando executamos um movimento de defesa - aos olhos de quem está de fora. A defesa é executada de modo que machuque, agrida o adversário, usando um membro (braço, perna) para defesa, e outro para ataque de modo simultâneo. Mas podemos defender e atacar – machucar – simultaneamente com o mesmo membro – braço ou perna -, como o que acontece quando usamos o princípio da cunha: interceptar e atacar com o mesmo braço, ou perna.

 

Economia de Energia

Simplicidade. Wing Chun é assim, simples. É sim, e não. Para que dar voltas, se existem caminhos retos? Para que movimentos floreados, espalhafatosos se com um simples movimentos resolve-se a situação? Em Wing Chun, todos os movimentos devem ser executados de modo a economizar energia – espaço, tempo e movimento.


A maioria dos estilos de luta defende, e ataca. Nem precisa estudar filosofia, nem ‘queimar’ neurônios para concluir que se gasta mais tempo e energia. Um praticante, treinando outro estilo – que faz uso de defesa, depois de ataque -, até pode com muito treino e dedicação superar essas desvantagens, ser muito rápido em seu estilo. Mas para isso, ele gastará muito mais tempo e energia.


Com menos tempo e menos esforço (economia de energia), ele se tornaria eficiente praticando uma arte marcial que faça uso de princípios que sustentam estilos como o Wing Chun.

   

Quatro Áreas de Defesa

A mão da frente atua nas áreas externa - Superior e Inferior;
A mão de trás atua nas áreas interna - Superior e Inferior.

 

Chutes Baixos e Médios

Chutes baixos e médios são mais fáceis de serem utilizados, e mais difíceis de serem defendidos. Nos chutes altos se gasta mais energia – espaço, tempo e movimento.

 
No ímpeto de um combate, na maioria das vezes um atira-se para cima – encurta a distância – do outro, tornando menos propício o uso de chutes altos. Assim, o uso de armas curtas em joelhadas, pisadas, rasteiras, cotoveladas, socos, agarres, além do uso de ombradas e cabeçadas são, na maioria das vezes, mais viáveis.


Mas isso não significa que um praticante de Wing Chun nunca faça uso de um chute mais alto, além da linha da cintura. Tudo é relativo, depende do momento e da situação. Wing Chun não é um estilo morto: é vivo, adaptável, dinâmico. Mas é preciso cautela. Os chutes altos ser usados, mas numa menor incidência.


Nos chutes baixos e médios – que menos expõem o lutador -, os alvos são bexiga, testículos, coxas, joelhos, canelas, panturrilhas etc. Quando no uso de defesas para chutes, um dos provérbios diz: “Da cintura para baixo resolva com as pernas, da cintura para cima resolva com as mãos”. 


Mas não é só isso. Em muitas situações é mais viável desestruturar, quebrar a base do chute. Ou seja, atacar a perna de apoio, ou atacar o centro de gravidade do adversário.

 

Quatro Atitudes

Se o caminho está livre, siga adiante;
Se o caminho está ocupado, mantenha-se colado;
Se o adversário faz força, deixe-o passar;
Se o adversário recua, siga-o e mantenha-se colado. 

 

Posicionamento Correto

Base correta – obedecendo as medidas e distribuição de peso;
Movimento correto dos braços - ângulo, transição;
Descontração dos ombros;
Cabeça alinhada – ver em todas as direções; 
Respiração natural;
Olhos e ouvidos alertas.

 

Unidade Corporal

Em Wing Chun o corpo se move como uma só peça, como uma unidade. Não deve ser separado em cabeça, tronco e membro. A ação deve combinar ataque/defesa e deslocamento.

 

Yin Yang

Yin Yang são conceitos da filosofia chinesa, e mostram a dualidade de tudo o que existe no universo. Descreve as duas forças opostas complementais. São energias opostas que se complementam formando o Tai Chi, símbolo composto por duas partes, uma representando Yin, e a outra representando Yang. No símbolo, é possível notar que Yin está em Yang, assim como Yang está em Yin. Yin não existe sem Yang, assim como Yang não existe sem Yin.


Wing Chun é alicerçado pelos princípios Yin Yang. Tudo muda, e assim o praticante de Wing Chun deve ser: mutável. Não é propício repetir ataques na mesma região. A ação deve ser contínua e variada, não esperada. É propício buscar as áreas de baixo, de cima, da direita, da esquerda, de dentro, de fora – de porte das Oito Armas (dois pés, dois joelhos, dois punhos, dois cotovelos).


Num combate, outras várias possibilidades de uso dos referidos princípios são essenciais: não fazer resistência; usar a força adversária a seu favor etc. “Se o seu ataque for bloqueado, não tente completar o golpe. Busque outro caminho”.

 

Estratégias

O praticante de Wing Chun é estrategista, forjador de oportunidades. As ciladas são forjadas a fim de confundir momentaneamente o adversário, tanto no campo físico, quanto no campo mental – psíquico. 


Quando o seu adversário lançar um ataque, mova-se – atacando – mais rápido que ele; não permita a ele completar a ação antes iniciada. Um chute na linha da cintura, ou na base de apoio do seu adversário anula toda a ação agressora. Aí está um dos vários exemplos de estratégia. “Quando você se move, eu o faço mais rápido”, diz um dos provérbios do Wing Chun.


Num confronto com dois ou mais agressores, atacar o – aparentemente - mais forte, ou o mais próximo, ou o mais distante de você pode causar confusão nas mentes dos indivíduos.


Mantenha-se tranquilo, sua respiração deve ser natural. A descontração do corpo é fundamental. Não demonstre medo. 
Não esperar nada, para absorver tudo.

 

Permitindo o fluxo da Energia Vital      

QI – HEI, em cantonês – é o que os chineses denominam de energia vital, fluído vital, sopro. É a energia que nos mantém vivos. Quando essa energia é interrompida, ou flui com dificuldade, adoecemos, ou morremos.


Tensões, sentimentos diversos, posturas ruins causam desordem no fluxo do QI (ou CHI, como é comumente conhecida), prejudicam a circulação. Por onde circula sangue, circula Chi. Se o Chi é interrompido, sobrevém a morte.


Portanto, é fundamental manter-se calmo, postura alinhada, respiração natural e constante, descontração muscular (ombros e outras partes do corpo) a fim de permitir a correta fluidez de chi.

 

Força Correta – não use Força Bruta

Fazer força, ou não fazer força
Antes, é preciso relaxar. O iniciante não deve fazer força.


É fundamental a descontração, o relaxamento de músculos e tendões. A verdadeira força – força trabalhada, lapidada – vem da suavidade.


A sensibilidade é necessária para o desenvolvimento da Força Correta.

A força correta acontece com a soma de uma série de princípios. Antes, é imprescindível uma boa estrutura, base, observando sempre as medidas, distribuição de peso etc. Depois vêm outros pontos já mencionados aqui, como: posicionamento correto dos braços, descontração dos ombros, cabeça alinhada, respiração natural, olhos e ouvidos alertas.


Com o uso dos princípios acima, fica fácil distinguir força bruta, da força correta, trabalhada. Numa explosão rápida, firme e solta como numa chicotada vê-se a diferença entre dureza e firmeza. Na minha - ainda pequena - visão sobre Wing Chun, costumo dizer que “Nosso corpo assemelha-se a uma bomba: solta, maleável, solta antes e depois da explosão. Somente no momento em que toca o alvo ela mostra toda sua potência, poder de destruição. Assim devemos ser em Wing Chun”.


Em resumo, usa-se força, sim! Mas não deve ser aquela força habitual, bruta. Deve ser uma força trabalhada, polida. E essa força é adquirida com o tempo, aliada à prática constante.     

 

Momento Certo

O ‘time’, tempo certo para agir é decidido pela capacidade de sentir do corpo (braços, pernas etc.). A percepção não vem por meio da visão, e sim, do contato – principalmente por meio dos braços – que aumenta a probabilidade de acertos.  

 

Quatro Distâncias

Longa - Chutes; 
Média – Socos, chutes curtos, rasteiras, pisadas; 
Curta – Joelhadas, rasteiras, pisadas, cotoveladas, ombradas, cabeçadas, mordidas, agarres;
Chão - Todas as técnicas possíveis no chão.

 

As técnicas do Wing Chun não terão eficácia alguma se não empregadas com conhecimento. E para isso, é necessário que o praticante tenha noção de tempo, e de distância. Não adianta lançar um soco, se a situação pedia um chute etc.

E é somente por meio da prática com parceiros, repetições e ajustes constantes que se é possível agir eficazmente montada numa estrutura correta capaz de trazer resultados positivos numa situação de combate real. 

 

Erasmo Deterra - 10 de junho de 2014.